sexta-feira, 5 de maio de 2017

O Processo

Levei aproximadamente um ano para elaborar meu ateísmo quando tinha 16 anos. A ideia começou em meados de 2002 e se solidificou em 2003. Foram 15 anos de puro existencialismo. De muita tranquilidade, porque colocar o assunto nesses termos resolveu o meu problema com a religião.
As pessoas sempre me falaram que eu estava assim porque ainda não tinha passado por alguma dificuldade séria na vida. Mas eu passei muita coisa. Não me orgulho disso, mas não pensei em Deus nesses momentos.
Penúria na época da faculdade. Tentativas de assalto. Solidão.  Desequilíbrio emocional. Brigas familiares. Decepções amorosas que me deixavam sem comer. A loucura da minha mãe. A morte da minha vó. A minha depressão.
Nunca pensei no conceito de Deus como uma necessidade. Como um instrumento de consolo.
Mas quando eu me vi diante de presentes tão bons num momento tão ruim, não acreditei na coincidência. Aquilo era Deus. Era incrível demais.
Primeiro que meu pai estava sendo acompanhado pelo médico mais influente do hospital. Apesar da preocupação e empenho deste em realizar todos os exames caros pelo SUS, nenhum diagnóstico era fechado.
Estava desenganada. Meu pai não tinha energia para usar o banheiro. Conversava todos os dias com um amigo médico que me explicava que havia sintomas de câncer. Eu pesquisava e pesquisava. O médico chamava todos os especialistas para tentar um diagnóstico.
Mas a cada exame eu comemorava. Não dava nada! O tumor não estava nos pulmões. Não estava no estômago. Não estava no cérebro. Não estava nos rins.
Até que restou a coluna. Só podia estar na coluna. A cintilografia óssea indicava. Um oncologista começou a ajudar no caso. O clínico me chamou no corredor: seu pai tem um câncer grave (sinais no pulmão parecia indicar metástase). Ele queria tirar minhas esperanças e me fazer acreditar que mesmo com o tratamento adequado meu pai ia morrer logo.
Chorei de revolta no refeitório. De repente percebi que até então, apesar de ser um ambiente tão difícil, eu não havia visto ninguém chorando no hospital.
O sr D andava conversando comigo. Havia marcado um encontro mas parecia só amigo - não me beijara. Nessa noite, preocupado com minha tristeza, ele me chamou para ir ao cinema.
Eu me desesperei pouco antes do encontro. Não parava de chorar. Mas pensei: preciso parar de pensar nisso. Esse médico não sabe de nada. Vou ao cinema.

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