terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Surto número: 2

            Temos que admitir.  Freud tinha razão.
            A filosofia de vida inspiradamente budista de Richard Carlson me proporcionou momentos de paz e autocontrole. Mas também me lançou ao inferno em questão de poucas semanas.
            Estou aqui para me abrir, sem longos caminhos da ficção à confissão, como Graciliano. Mas nem aqui quero ver explorada toda a podridão que me assombra.
            Topei um dia desses com um problema familiar doloroso. Decidi não pensar mais no assunto, nem contar a ninguém, para não deixar que aquilo crescesse, nem incomodasse mais ninguém. Assim obtive minha paz instantânea.
            Custou caro demais. Logo fui surpreendida por pesadelos. E hoje por um descontrole emocional assustador. Senti uma raiva tão grande, que literalmente tentei arrancar meus cabelos.
            A questão familiar em si parece enterrada. Mas questões tangíveis foram abaladas. Coisas que guardei com muito custo. Com muito tempo.
            O recalque, e a repressão, vão nos cobrar tudo. É só uma questão de tempo.
            Estou sozinha. Não conto com a compreensão de ninguém. Só tenho amigas mal amadas que acham que sou muito feliz, só porque estou sempre me debatendo em algum relacionamento sério. E dessa vez estou pior, porque passei tempo demais na Disney de Richard Carlson.
            Essa filosofia de vida resolve o mau humor, a insônia, quase todos os males. Mas Carlson não tem nenhum plano B contra o inconsciente. Talvez ele resolva as coisas com delírios. Eu não sei o que vou fazer. Meus sintomas são horríveis. Mas não tenho como ficar surtando. Mesmo que eu tivesse dinheiro para começar uma análise, não tenho quem me indique um analista e demoraria tempo para obter algum resultado. Não tenho boa experiência com psicólogos. Nem com psiquiatras.
            Hoje vou dormir tarde. Nada como correr para os sintomas depois de um surto.

            O que estou pensando aqui – basta de controlar a mente né – é que ele não me ama – será mais um sintoma? As coisas que ele me disse. Eu nunca sei quando pular fora. Acusou-me de louca. Imagine ele, depressivo e broxa, me cobrar alguma coisa. Depois ele sempre tem a desculpa de que na hora da raiva vale tudo. Dizemos o que não queremos. Eu estava muito nervosa, nem por isso falei que ele é broxa. 

Surto número: 1

Tenho uma epifania para contar. É de algumas semanas atrás...
            Saí à noite para dançar com umas amigas, aproveitando que meu namorado viajou. Queria aproveitar o início da balada, que tinha música eletrônica, porque as atrações mesmo eram duas bandas de rock. Rock não é muito dançante, por isso não estava esperando nada das bandas.
            Dancei como louca até a hora da primeira banda e sentei. Mas a voz começou a chamar a atenção. Minha amiga, de contas para o palco, será que o vocalista é gatinho? Rs. Não. É uma garota. Tivemos que ir para perto do palco. A música estava chamando mesmo.
            Essa amiga também prefere música eletrônica para dançar. Mas desde que aproximamos do palco sentimos uma animação. A cantora, figurino estranho, masculina, sem maquiagem, gordinha, tinha uma voz que amaciava e dava balanço aos rocks internacionais mais escrotos.
            Então, lá pela quinta música sei lá, o tecladista seguia muito animado se dobrando todo e a gordinha botava todo seu charme vocal pra fora, numa música que eu nem sei qual era. Entrei em transe. Epifania. Nirvana. Não sei explicar o que foi aquilo. Não usei drogas. Nunca usei drogas (ilícitas né). Bebi só um drink, porque estou cortando gastos. Estava com uma garrafa de água na mão. Olhava para o palco. Meu corpo seguia a batida. E tudo que eu queria era fechar os olhos e me entregar a uma sensação muito forte. Uma emoção arrebatadora. Pensei que aquilo era uma espécie de presença de Deus. Êxtase místico. Surto psicótico. Eu queria muito chorar. Me apoiar em algum canto e chorar até. Era muito bom. Eu não conhecia a música. Nem sei dizer qual era porque era em inglês e não me lembro de nenhum trecho. Naquele momento palavras não eram necessárias. Ao mesmo tempo estava consciente e fiquei com medo que alguém me observasse naquela loucura. Como eu explicaria o choro num show de rock? Minhas amigas pensariam que eu estava triste, talvez com um ataque súbito de saudade do meu namorado, rs. E as pessoas ao redor? Daí contive o choro do jeito que foi possível.
            Eu já havia sentido coisas interessantes dançando música eletrônica. Algo como o esvaziamento mental. Mas nunca passou da vontade de fechar os olhos e me entregar à música. Dessa vez foi muito mais intenso. Acho que tenho fortes tendências psicóticas, rs.

            Foi muito bom. E fiquei esperando que continuasse em outras músicas. Mas não senti mais. Foi uma música só. Uma música que eu nem conhecia. Fiquei imaginando se a recente diminuição de açúcar na minha dieta pode der causado o choque.