terça-feira, 26 de junho de 2012

Atos falhos

O meu homem sério/complicado me escreveu uma mensagem onde a palavra culpa apareceu repetidas vezes. Como um bom neurótico, seu superego está gozando com a situação. Esta enorme culpa vai torturá-lo, cumprindo sua necessidade de punição. Ao mesmo tempo ele foge da necessidade de encarar seus problemas emocionais deflagrados pelo relacionamento.


E eu? Eu quero muito mudar meu objeto de desejo. Não quero ser atraída por pessoas complicadas, difíceis, loucas. Quero me apaixonar por um cara saudável, com o mínimo de neuras necessárias. Preciso fugir dessas ligações doentias. Como uma boa neurótica estou sempre repetindo este padrão de homem.

Encontrei umas palavras de Freud que parecem definir nosso relacionamento:

“Quanto mais ‘nervosas’ são duas pessoas, mais elas se dão motivos para desentendimentos cuja responsabilidade é tão terminantemente negada por cada uma em relação a si mesma quanto é considerada certa em relação à outra. E esse é sem dúvida o castigo pela insinceridade interna das pessoas, que só a pretexto do esquecimento, dos equívocos na ação e da não-intencionalidade expressam impulsos que melhor seria admitirem para si mesmas e para os outros quando já não podem controlá-los.” (Atos casuais e sintomáticos; vol. VI; Sobre a psicopatologia da vida cotidiana).

Nesse texto ele fala dos atos falhos, dando muitos exemplos. Fiquei pensando no estopim de minha briga com o falecido. Eu causei a situação, com atos falhos, do tipo perder a hora, falar coisas de duplo sentido. Porque eu fiz isso? Certamente havia coisas mal resolvidas, mas eu não queria terminar. Ele também contribuiu bastante – ao me ver nervosa falou coisas desnecessárias que me fizeram falar coisas piores ainda.

Muito bem, eu admito que o desprezava por não conseguir se organizar com o horário. Desprezo talvez seja uma palavra forte demais. Eu apenas achava meio ridículo a atrapalhação dele com os horários. Ele tinha uma tendência a complicar tudo. Não tinha o menor senso prático. Essa incapacidade de resolver as coisas com eficiência me matava. E ele era assim no campo emocional também. Nunca conseguia por fim a uma discussão. Se eu não cedesse e o adulasse ele poderia prolongar qualquer briga indefinidamente. Um idiota.

Ele demorava enormemente para acordar, do tipo que liga a soneca do celular um milhão de vezes. Demorava mais que eu para se arrumar. Muito lerdo. Sempre chegava atrasado ao trabalho. Engraçado, foi justamente usando isso que eu falei sobre os atrasos dele. Atrasei para falar que ele se atrasava. Interessante o meu ato falho.

Eu adoraria jogar na cara dele todos os horrores que penso. Foi muito bom não termos conversado para terminar, eu teria dito muitas coisas das quais me arrependeria. Sim, estava preocupada com a carreira derrotada dele. Percebia como a sua falta de estabilidade financeira seria um empecilho para ficarmos juntos. Não via explicação para ele não ter feito ainda pós-graduação ou passado num concurso razoável. Não achava muito bonito ele morar com a mãe, aos 36 anos. E também não admirava o fato de ele ter tido relacionamentos tão curtos, enquanto a maioria de seus amigos já estavam casados e tendo o primeiro filho.

Mas eu fazia vista grossa, gostava dele. É horrível pensar nele desse modo. Eu queria cuidar dele. Porque estou parecendo essas mulheres apaixonadas pelo marido alcoólatra? Não tenho que salvar ninguém. Tenho que procurar o que for melhor para mim.

Ele estava certo em terminar.

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