quarta-feira, 23 de junho de 2010

Ódio recalcado

Desde que voltei a morar com meus pais estou tendo problemas de adaptação. Parei de sonhar que meu namorado está me pirraçando, agora sonho com meu pai. Quase toda noite, pesadelos horríveis. Vão me incomodando todas as madrugadas, deixando meu sono insatisfatório.
Se antes o problema era dormir, agora é permanecer dormindo a noite toda. Numa noite sonhei que ele estava me dando uma surra (ele só me bateu uma vez na infância), minhas pernas estavam ardendo. Na outra ele respingou meu quarto todo (no sonho meu quarto era estreito e conjugado com um sanitário), me matando de raiva.
Ele está reformando a casa e ninguém pode dar palpite. Tudo tem de ser do jeito dele. Implica com as coisas que eu trouxe da capital. Não pude mais dirigir o carro dele depois que o pára-choque apareceu com um risquinho de outra cor. Brigou com meu namorado por causa de uma bobagem. E houve vários outros episódios de intolerância.
O sonho desta madrugada foi terrível. Vou contar apenas os piores momentos. Saio do meu serviço e a porta dá para um super mercado. Numa mesa vendem uma torta de cabeça humana. A torta é decorada com essas flores usadas em caixão, mas são de chocolate. Corro aterrorizada. Chego a um corredor com restos de flores no chão, como se ali tivesse ocorrido um velório. O terror aumenta, me sinto acuada. Olho para trás e vejo um homem com um agasalho preto largo de capuz. Dentro do capuz não há cabeça, há uma lâmpada incandescente. Corro para esse ser estranho, com muito ódio, grito: mata esse desgraçado! E dou uma "voadora" nele.
Parece meio cômico mas acordei apavorada, com medo de abrir os olhos ou de acender a luz. Lembrando os detalhes vejo que quem costuma usar esse agasalho é o Sr. R. Contudo, a lâmpada lembra o final de uma das brigas que tive com meu pai. A morte, como Freud dizia, representa o processo de independência do meu pai. E a violência com certeza o ódio recalcado. Acho que não contei que quando o Sr. R brigou comigo ele me tratou como se fosse meu pai e os motivos foram os mesmos pelos quais meu pai já brigou em outras e diversas ocasiões.
Um dos motivos é o desaparecimento de algum objeto. Como no caso do Cinturão em Infância de Graciliano Ramos. Um pai injusto e cruel.
Parece que esse pesadelo representa o desejo inconsciente de que meu pai morra. Não poderia ser pior. O inconsciente usou a figura do Sr. R porque por ele eu me permito sentir ódio, afinal, não passa de um conhecido. E ninguém do setor gosta dele mesmo.
Interessante que o ser não tinha cabeça. E a torta era de cabeça, aparentemente a cabeça do meu pai. Isso me lembra do texto Totem e Tabu, onde o pai primevo é morto e devorado pelos filhos. Só de ver a torta senti muito medo e nojo. Mas ao ver a criatura senti muita raiva e então acordei.

Nenhum comentário: