terça-feira, 2 de março de 2010

Poder e Transferência

Pesquisando sobre Transferência tenho lido muitos artigos relevantes. Ainda não encontrei solução para minha pergunta inicial sobre a diferença entre amor real e amor de transferência, mas descobri que há outras questões envolvidas. Um dos textos interessantes é de autoria de um professor com quem tive aulas, Marcelo Ricardo Pereira, aliás, cara muito engraçado, enche as aulas de bom humor. Ele me inspirou uma transferência estilo ódio e desafio que me fez decorar toda a matéria para fechar a prova final, cumprindo assim o objetivo dele.

O texto se chama "Amor e rigor ou o que pode dizer a psicanálise sobre o documentário 'ser e ter" e traça uma análise dos tipos de professores que podemos encontrar tanto na vida real como em filmes. Achei muito engraçado, por exemplo, a "professora-aermoça", muito encontrada em colégios particulares (fico imaginando o Marcelo interpretando esse tipo risonho, rs), tenta agradar aos alunos em sua missão quase jesuíta. Segundo o autor, esse é um exemplo de como o universo pedagógico mostrado no cinema está infestado da ideologia do ensino como "causa sacrificial". Nem preciso re-citar os filmes que Pereira usa como exemplos, é o nosso próprio imaginário. Já trabalhei em escola particular (não como professora, Deus me livre – não acredito nele, mas por falta de expressão melhor...) e sentia esse clima horroroso de "o cliente tem sempre razão".

Já pensando na transferência de fato, encontrei no artigo um trecho que me interessou mais e, portanto, citarei na íntegra:

Ao se teorizar com Cristina Kupfer (1992), reconhecemos que, na relação pedagógica, uma transferência de amor se produz quando o desejo de saber do aluno aferra-se a um elemento particular, que é a pessoa do professor. O aluno atribui, então, um sentido especial àquela figura determinada pelo desejo. O professor, por sua vez, esvaziado de seu próprio sentido, torna-se objeto de investimento de algo pertencente ao aluno, que lhe fixou um outro sentido tão singular, quanto inconsciente. Contudo, todo docente, de uma maneira ou de outra, tende a apoderar-se desse sentido singular investido em sua pessoa pelo aluno. Dessa posse deriva-se um poder, pois a transferência de sentido, operada pelo desejo, é também uma transferência de poder. (...)

O aluno quer que seu professor suporte esse lugar do amor e permaneça ali onde o colocou, mas não é tão fácil. Esse professor é também um sujeito marcado pelo seu desejo inconsciente, que o impulsionou à mestria e o fará exercer seu poder. Se assim for, todo professor antes da prudência, antes da antecipação, tenderá a abusar do lugar que ocupa, subjugando seu aluno, impondo-lhe suas próprias concepções, valores e modelos predeterminados (In: Estilos da Clínica, 2005, Vol. X, nº18, 12-23).

E esse poder me lembrou uma questão que tenho observado frequentemente. Agora que não estudo mais à noite aproveito para fazer aulas de dança de salão, que adoro. A aula não é dessas chatas onde as pessoas ficam a vida toda repetindo o mesmo passo na frente do espelho (odeio esse método). Os casais vão dançando, trocando de par a cada música. O professor passa por cada aluno e vai orientando, corrigindo e ensinando novos passos. Enquanto isso, os alunos mais experientes costumam ajudar os iniciantes, corrigindo e dando dicas. E como isso parece mexer com as pessoas! A maioria adora estar nessa posição de saber, poder "bancar o professor". Outros se confessam aliviados de poder dançar com alunos inexperientes os quais não poderão sugerir correções. Há novatos que se sentam num cantinho e se recusam a aprender os primeiros passos argumentando vergonhosamente "eu não sei nada", é claro, foram aprender.

Na aula de dança a posição de poder do professor é altamente temida e desejada. Pessoalmente, sinto vergonha em ter que corrigir algum aluno iniciante, me sinto humilhada quando algum aluno deseja corrigir um passo que acredito já ter aprendido e sinto prazer em ver os alunos mais convencidos errarem o passo justamente quando o prof. está observando. Como reconhecer sem mágoas as correções de alguém que sabe mais que você, mas que não é o professor de fato? Acho que nesses momentos a transferência é imprescindível.

Parece que a aula de dança, por se tratar de conteúdo prático e ser ministrada através de treinamento contínuo intensifica o jogo de relações de uma aula tradicional teórica. Somos avaliados o tempo todo, por todos, contudo, nosso maior inimigo é nosso próprio corpo que precisa memorizar os passos e reagir aos comandos do parceiro com reflexo automatizado. A posição de professor transita falsa e simultaneamente por todo o salão, o que suscita constrangimentos entre todos os pares.

Um comentário:

Dih disse...

Florinha, respondi ao seu comentário no próprio post "Pelos Ares". Já leu? Se não, dá uma olhadinha lá, ok?


Beijos