sexta-feira, 19 de março de 2010

Certeza da sedução ou sedução da certeza

Estava vendo um filme agora. Não lembro o nome, também não importa, minha memória é normal, ou seja, fraca e conveniente. O casal do filme se forma rápido. Ele a escolhe através da troca de olhares, faz a abordagem e no final da noite já está dizendo que ela é a sua namorada e que ele nunca vai deixá-la. Essa certeza implacável a apanha. Dormem juntos e ela o segue até a morte. Certeza, determinação e perseverança. Será que há algo mais sedutor?

Meus pais sempre contam que meu pai estava de olho em minha mãe há algum tempo. Um dia a abordou, segurou sua mão, perguntou se ela tinha namorado – Não... – Então, eu sou seu namorado. E passou a ser mesmo.

Quando fiquei pela primeira vez com meu namorado tinha certeza de que seria uma vez só, porque não tínhamos nada em comum. Mas ele conversou comigo sobre continuarmos nos vendo. Ele tinha tanta certeza sobre sua vontade de me ver novamente, que apesar de estar tão enrolada... me envolvi. Não saberia explicar o desenvolvimento passo a passo, porque minha memória normal, repito, é fraca e conveniente. Sei que nos vemos outras vezes e resolvi meus rolos para que pudéssemos namorar.

Quando as coisas estão mal sempre me permito pensar em terminar e até expor isso a ele. Mas se ele o faz, fico ofendida. E ele já questionou isso – não é tão bobinho assim. Mas é que eu preciso me enganar com a certeza dele. Apenas em poucos momentos suporto a tensão de dar a certeza enquanto ele está em dúvida. É definitivamente broxante. É quase como na transferência da análise, é preciso que eu suponha nele um saber. Preciso crer que ele tem motivos para acreditar nesse relacionamento, motivos que eu desconheço.

E parece que se dá o mesmo na literatura. Dizem sobre a ficção que o personagem precisa convencer o leitor. E que o personagem precisa convencer primeiro o próprio escritor. Parte desse processo é alcançado pela verossimilhança. Mas como as formas de retratar o real estão cada vez mais revolucionárias, agora verossimilhança é quase sinônimo de inverossimilhança. Quanto mais absurda a abordagem mais "reais" as cenas se tornam para nós expectadores. Porque aquele real quadradinho não consegue mais traduzir nossas experiências, se é que antes conseguia. Não nos identificamos porque o real é muito mais.

Mas eu queria é contar uma situação embaraçosa. Fui a um bairro diferente hoje acompanhando meu pai que ia resolver umas questões domésticas. Vimos no caminho um homem que me pareceu extremamente familiar. Meu pai não o conhecia e eu não lembrava onde vira o sujeito de forma alguma. Parecia que era de um lugar que eu ia com frequência. Mas ultimamente não tenho ido a lugar algum. Na volta o vimos novamente, varrendo a calçada e de novo a forte impressão. Pode ser um segurança, caixa, vendedor – meu pai ficou chutando. Repentinamente lembrei, é um dos atendentes do motel que frequento. Calei, tentando parecer resignada por não conseguir me lembrar.

Há sempre uma razão para não nos lembrarmos de algo. O recalque sempre nos protege. Além de tudo a nossa memória é muito manipuladora e infiel. Não se pode confiar nela. Não se pode ter a certeza que tanto precisamos. Por isso digo que minha memória é normal: fraca e conveniente.

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