quinta-feira, 25 de março de 2010

Tudo passa e eu ainda...

Semana passada fui ao show da Ana Carolina. E essa semana estou com uma música na cabeça que não me deixa hora nenhuma: O Avesso Dos Ponteiros Composição: Ana Carolina Sempre chega a hora da solidão Sempre chega a hora de arrumar o armário Sempre chega a hora do poeta a plêiade Sempre chega a hora em que o camelo tem sede O tempo passa e engraxa a gastura do sapato Na pressa a gente nem nota que a Lua muda de formato Pessoas passam por mim pra pegar o metrô Confundo a vida ser um longa-metragem O diretor segue seu destino de cortar as cenas E o velho vai ficando fraco esvaziando os frascos E já não vai mais ao cinema Tudo passa e eu ainda ando pensando em você Tudo passa e eu ainda ando pensando em você (...) O tempo faz tudo valer a pena E nem o erro é desperdício (...) Ai, seria muita neurose interpretar esse você como sendo o Sr. G? Vou deixar em aberto. Adorei o show. Dancei e beijei muito F. E achei graça de perceber que ela não é magrinha como nas fotos publicitárias. Pelo contrário, tem um quadril bem largo. Tem o corpo da minha mãe. E estava tão elegante de terninho, rs.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Certeza da sedução ou sedução da certeza

Estava vendo um filme agora. Não lembro o nome, também não importa, minha memória é normal, ou seja, fraca e conveniente. O casal do filme se forma rápido. Ele a escolhe através da troca de olhares, faz a abordagem e no final da noite já está dizendo que ela é a sua namorada e que ele nunca vai deixá-la. Essa certeza implacável a apanha. Dormem juntos e ela o segue até a morte. Certeza, determinação e perseverança. Será que há algo mais sedutor?

Meus pais sempre contam que meu pai estava de olho em minha mãe há algum tempo. Um dia a abordou, segurou sua mão, perguntou se ela tinha namorado – Não... – Então, eu sou seu namorado. E passou a ser mesmo.

Quando fiquei pela primeira vez com meu namorado tinha certeza de que seria uma vez só, porque não tínhamos nada em comum. Mas ele conversou comigo sobre continuarmos nos vendo. Ele tinha tanta certeza sobre sua vontade de me ver novamente, que apesar de estar tão enrolada... me envolvi. Não saberia explicar o desenvolvimento passo a passo, porque minha memória normal, repito, é fraca e conveniente. Sei que nos vemos outras vezes e resolvi meus rolos para que pudéssemos namorar.

Quando as coisas estão mal sempre me permito pensar em terminar e até expor isso a ele. Mas se ele o faz, fico ofendida. E ele já questionou isso – não é tão bobinho assim. Mas é que eu preciso me enganar com a certeza dele. Apenas em poucos momentos suporto a tensão de dar a certeza enquanto ele está em dúvida. É definitivamente broxante. É quase como na transferência da análise, é preciso que eu suponha nele um saber. Preciso crer que ele tem motivos para acreditar nesse relacionamento, motivos que eu desconheço.

E parece que se dá o mesmo na literatura. Dizem sobre a ficção que o personagem precisa convencer o leitor. E que o personagem precisa convencer primeiro o próprio escritor. Parte desse processo é alcançado pela verossimilhança. Mas como as formas de retratar o real estão cada vez mais revolucionárias, agora verossimilhança é quase sinônimo de inverossimilhança. Quanto mais absurda a abordagem mais "reais" as cenas se tornam para nós expectadores. Porque aquele real quadradinho não consegue mais traduzir nossas experiências, se é que antes conseguia. Não nos identificamos porque o real é muito mais.

Mas eu queria é contar uma situação embaraçosa. Fui a um bairro diferente hoje acompanhando meu pai que ia resolver umas questões domésticas. Vimos no caminho um homem que me pareceu extremamente familiar. Meu pai não o conhecia e eu não lembrava onde vira o sujeito de forma alguma. Parecia que era de um lugar que eu ia com frequência. Mas ultimamente não tenho ido a lugar algum. Na volta o vimos novamente, varrendo a calçada e de novo a forte impressão. Pode ser um segurança, caixa, vendedor – meu pai ficou chutando. Repentinamente lembrei, é um dos atendentes do motel que frequento. Calei, tentando parecer resignada por não conseguir me lembrar.

Há sempre uma razão para não nos lembrarmos de algo. O recalque sempre nos protege. Além de tudo a nossa memória é muito manipuladora e infiel. Não se pode confiar nela. Não se pode ter a certeza que tanto precisamos. Por isso digo que minha memória é normal: fraca e conveniente.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Alegria, raiva, decepção, amor e felicidade

Essa semana foi muito agitada. Foi a minha colação de grau. Eu passei vários semestres pensando (assim como várias amigas pensam) que iria chorar muito na cerimônia, que passaria por minha cabeça todos os momentos difíceis, que seria emocionante como um casamento, e até mais, porque, hoje o diploma é mais importante na vida de uma mulher. E também eu havia sentido muita vontade de chorar na colação de outras pessoas. Contudo, o clima era de animação, de festa, de zueira. Somente quando entrávamos no auditório, ao som de Oh Happy Day instrumental em flauta e um lindo piano preto com cauda é que senti uma levíssima emoção e meus olhos ficaram úmidos. Mas secaram no mesmo instante e voltei a ficar animada. Muitos discursos inteligentes, poéticos e engraçados. Não vi ninguém chorar. Foi tudo lindo.

Bom, aconteceram muitas coisas ruins no resto da semana. O professor de dança sumiu no dia da aula e eu quase morri de raiva. Pouquíssimos convidados apareceram na comemoração que planejei numa boate, contudo os que apareceram eram os mais chegados e a noite bombou demais. Fui deixada de lado pela milésima vez pela mesma "amiga" e sonhei com ela hoje. A Srta. A me contou que ficou com o Sr. L, daquela história passada (vide Sonho Constrangedor). Tudo bem, fiquei surpresa com a cara de pau dela em ter negado tudo antes, mas o problema não foi esse. Ela nem me avisou que não iria poder comparecer ao meu convite da boate. Nem respondeu o convite e nem atendeu minha chamada. A maior falta de consideração. Provavelmente teve planos mais interessantes com o Sr. L. Agora que estou fora do caminho ela não precisa mais se preocupar comigo. Talvez ela até sentiu medo de que ele tivesse uma "recaída" quando me visse na boate. Afinal, eu comentei com ela que havia brigado com meu namorado.

Sonhei que estava no trabalho com o tal Sr. L. A sala de trabalho é a sala de minha casa. Ele estava especialmente atencioso, de um modo suspeito. Ele me abraça apertado e não solta mais, me sacudindo levemente. E eu fico sem graça e falo: você tá ninando eu? (em tatibitate, brincando com ele). Pelo espelho vejo que estou de blusa e scarpin vermelhos. Vejo também que são 1 hora. Esse é o horário da Srta. A chegar. E ela chega, olha a cena sem graça e eu mais sem graça digo oi. Ela responde bem choca e falsa: oi, e vira o rosto para o outro lado do batente, como costuma fazer às vezes no serviço. Nesse momento tenho certeza que a cena foi uma armação para causar ciúmes na Srta. A. O Sr. L me solta e diz para um cara que chega: precisa conhecê-la (referindo-se a mim), ela é demais. O cara nem dá papo e eu acordo.

Logo, penso que o desejo do sonho é uma vingancinha óbvia demais. Mas outros elementos me deixam em alerta. Esse detalhe do sapato e blusa vermelha. Lembro que usei uma roupa assim quando estava ficando com o Sr. Tenho namorada que me deixou. Foi o melhor dia que estivemos juntos. Beijamos intensamente durante horas. Mas quem me incomoda nessa história toda é ela. A Srta. A é que foi falsa, sempre fingindo ser minha amiga. Sempre quis o Sr. L pra ela. Mas era por mim que ele se interessou quando nos conheceu. Inconscientemente todas as nossas piadas tinham conteúdo sexual. Era atração pura. O problema não é o garoto. Ela é que ficou com raiva de mim por causa disso. O que sei é a censura do inconsciente falhou e eu acordei às 7 da matina e não consegui dormir mais.

E porque eu não peguei o Sr. L? Por causa do meu namorado, F. Na época o namoro estava um pouco fraco, mas não quis trair, nunca traí ninguém e não vi motivo pra isso. Mas agora estamos tão bem. Estou apaixonada novamente, e já estamos chegando ao 3° ano de relacionamento. Acho que trair nunca vale à pena, nem faz sentido, porque se está tão ruim assim é melhor terminar. E se você não consegue terminar é porque gosta mesmo e deve tentar resolver as coisas.

Voltei a crer que F é a pessoa com quem vou passar o maior tempo da minha vida. Essa frase é uma forma de dizer sem romantismo que ele é o amor da minha vida. Sou cética, não devo ficar declarando essas coisas, rs. Esses dias, como hoje, dias tão simples. Mas tão repletos de significado. Não temos nada em comum a não ser o senso de moral. Já aprendemos muita coisa sobre como conviver bem com nossas diferenças. Ele está a cada dia mais bonito e mais amoroso. Estou feliz.

domingo, 7 de março de 2010

O mundo é podre

Hoje estive pensando sobre uma das frases mais simples e mais verdadeiras "O mundo é podre". Ano passado eu costumava zuar dizendo que essa seria a epígrafe de minha monografia. É que estive lendo uma reportagem da Revista Época (dez/09). Essa revista é apenas uma revista de fofocas e curiosidades, o diferencial dela é que se restringe ao mundinho da Globo. Só uma reportagem me pareceu relevante, a respeito do favoritismo no processo de seleção das universidades públicas do país. Fiquei assustada porque percebi o que as pessoas queriam me dizer com: faça o mestrado logo após a graduação, aproveite que você ainda tem contatos. O "Quem Indica" parece ser o fator fundamental para passar na seleção. Fiquei preocupada triplamente. Primeiro por imaginar que as pessoas passam porque já fizeram iniciação científica com algum professor da pós e para as que não conhecem ninguém é quase impossível entrar. Segundo porque não sei se os professores que podem me dar a famosa carta de recomendação poderão me ajudar nessa disputa. E terceiro porque o Sr. G pode ter pensando que quando insinuei meu interesse por ele tinha terceiras intenções ou fui interesseira. E é justamente o contrário. Uma das coisas que mais me animam a fazer mestrado é poder revê-lo. É terrível pensar que ele possa confundir meu interesse sincero pela pessoa dele com uma busca de favores. Mas o mundo é movido por politicagem! Pode parecer ingenuidade minha, mas isso me revolta. E tive outro exemplo mais baba ainda nessa semana. Estava lendo um artigo sobre a História da Literatura Brasileira. Chama-se "O Livro que saiu do cânone" de Sônia Maria van Dijck Lima publicado na Revista Anpoll 13. Nesse artigo ela conta que o primeiro livro do Guimarães Rosa, "Sagarana", ainda inédito, disputou um prêmio literário em 1938 e perdeu para "Maria Perigosa" de um tal de Luís Jardim. Depois em 1946 Rosa publica seu livro um pouco modificado e se torna um sucesso e o Luís Jardim cai no esquecimento. Acontece é que o Rosa foi trabalhar num alto posto da administração pública, como esclarece Sônia Lima, citando um jornal carioca da época. Ou seja, não basta ser bom. E os dois são bons. Mas é preciso ter QI, costas quentes, influência, contatos, existem vários nomes pra essa injustiça. Essa é a diferença essencial entre eles, afinal, Rosa ou Jardim dá na mesma, não é? Na verdade a temática de ambos é muito semelhante. E um dos componentes da banca desse concurso foi o Graciliano Ramos. E ele votou no Luís Jardim. Isso é sinal de que deve valer a pena garimpar um exemplar de "Maria Perigosa". Confio muito no gosto do Graça.

terça-feira, 2 de março de 2010

Poder e Transferência

Pesquisando sobre Transferência tenho lido muitos artigos relevantes. Ainda não encontrei solução para minha pergunta inicial sobre a diferença entre amor real e amor de transferência, mas descobri que há outras questões envolvidas. Um dos textos interessantes é de autoria de um professor com quem tive aulas, Marcelo Ricardo Pereira, aliás, cara muito engraçado, enche as aulas de bom humor. Ele me inspirou uma transferência estilo ódio e desafio que me fez decorar toda a matéria para fechar a prova final, cumprindo assim o objetivo dele.

O texto se chama "Amor e rigor ou o que pode dizer a psicanálise sobre o documentário 'ser e ter" e traça uma análise dos tipos de professores que podemos encontrar tanto na vida real como em filmes. Achei muito engraçado, por exemplo, a "professora-aermoça", muito encontrada em colégios particulares (fico imaginando o Marcelo interpretando esse tipo risonho, rs), tenta agradar aos alunos em sua missão quase jesuíta. Segundo o autor, esse é um exemplo de como o universo pedagógico mostrado no cinema está infestado da ideologia do ensino como "causa sacrificial". Nem preciso re-citar os filmes que Pereira usa como exemplos, é o nosso próprio imaginário. Já trabalhei em escola particular (não como professora, Deus me livre – não acredito nele, mas por falta de expressão melhor...) e sentia esse clima horroroso de "o cliente tem sempre razão".

Já pensando na transferência de fato, encontrei no artigo um trecho que me interessou mais e, portanto, citarei na íntegra:

Ao se teorizar com Cristina Kupfer (1992), reconhecemos que, na relação pedagógica, uma transferência de amor se produz quando o desejo de saber do aluno aferra-se a um elemento particular, que é a pessoa do professor. O aluno atribui, então, um sentido especial àquela figura determinada pelo desejo. O professor, por sua vez, esvaziado de seu próprio sentido, torna-se objeto de investimento de algo pertencente ao aluno, que lhe fixou um outro sentido tão singular, quanto inconsciente. Contudo, todo docente, de uma maneira ou de outra, tende a apoderar-se desse sentido singular investido em sua pessoa pelo aluno. Dessa posse deriva-se um poder, pois a transferência de sentido, operada pelo desejo, é também uma transferência de poder. (...)

O aluno quer que seu professor suporte esse lugar do amor e permaneça ali onde o colocou, mas não é tão fácil. Esse professor é também um sujeito marcado pelo seu desejo inconsciente, que o impulsionou à mestria e o fará exercer seu poder. Se assim for, todo professor antes da prudência, antes da antecipação, tenderá a abusar do lugar que ocupa, subjugando seu aluno, impondo-lhe suas próprias concepções, valores e modelos predeterminados (In: Estilos da Clínica, 2005, Vol. X, nº18, 12-23).

E esse poder me lembrou uma questão que tenho observado frequentemente. Agora que não estudo mais à noite aproveito para fazer aulas de dança de salão, que adoro. A aula não é dessas chatas onde as pessoas ficam a vida toda repetindo o mesmo passo na frente do espelho (odeio esse método). Os casais vão dançando, trocando de par a cada música. O professor passa por cada aluno e vai orientando, corrigindo e ensinando novos passos. Enquanto isso, os alunos mais experientes costumam ajudar os iniciantes, corrigindo e dando dicas. E como isso parece mexer com as pessoas! A maioria adora estar nessa posição de saber, poder "bancar o professor". Outros se confessam aliviados de poder dançar com alunos inexperientes os quais não poderão sugerir correções. Há novatos que se sentam num cantinho e se recusam a aprender os primeiros passos argumentando vergonhosamente "eu não sei nada", é claro, foram aprender.

Na aula de dança a posição de poder do professor é altamente temida e desejada. Pessoalmente, sinto vergonha em ter que corrigir algum aluno iniciante, me sinto humilhada quando algum aluno deseja corrigir um passo que acredito já ter aprendido e sinto prazer em ver os alunos mais convencidos errarem o passo justamente quando o prof. está observando. Como reconhecer sem mágoas as correções de alguém que sabe mais que você, mas que não é o professor de fato? Acho que nesses momentos a transferência é imprescindível.

Parece que a aula de dança, por se tratar de conteúdo prático e ser ministrada através de treinamento contínuo intensifica o jogo de relações de uma aula tradicional teórica. Somos avaliados o tempo todo, por todos, contudo, nosso maior inimigo é nosso próprio corpo que precisa memorizar os passos e reagir aos comandos do parceiro com reflexo automatizado. A posição de professor transita falsa e simultaneamente por todo o salão, o que suscita constrangimentos entre todos os pares.