terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Atração ou Transferência

Na noite passada senti vontade de ler sobre a transferência na obra de Freud. Encontrei um texto chamado conferência 27: Transferência no volume 16. Rudemente a transferência pode ser definida como um investimento libidinal do paciente na figura do analista e também do aluno no professor. É engraçado quando Freud conta sobre o descobrimento deste fenômeno, ele afirma que sabia não ser tão atraente assim para causar apaixonites em todas as suas pacientes, rs. Depois ele explica que os sentimentos suscitados na transferência nada têm a ver com o analista. E eu fiquei pensando, mas e quando eles têm a ver? E quando o analista além de tudo é bonito (como o professor de psicanálise que tive... muito gato, recém formado, tinha vinte e poucos anos, sorrisão, cabelos pretos fartos, barbinha charmosa, alto... ele dizia que passava apertado com as pacientes bonitas). Isso muda alguma coisa? E quando o analista resolve interagir com a chamada contratransferência? Dizem que muitos casais já se formaram assim, eles apenas param o tratamento e vão ser felizes.

Quando, porém, semelhante vinculação amorosa por parte do paciente em relação ao médico se repete com regularidade em cada novo caso, quando surge sempre novamente sob as condições mais desfavoráveis e onde existem incongruências positivamente esquisitas, até mesmo quando senhoras de idade madura se apaixonam por homens de barba grisalha, até mesmo onde, conforme julgamos, não há nada, de espécie alguma, capaz de atrair - então devemos abandonar a idéia de uma perturbação casual e reconhecer que estamos lidando com um fenômeno intimamente ligado à natureza da própria doença (FREUD).

O estabelecimento da transferência é uma condição essencial na análise:

Para nós é impossível ceder às exigências do paciente, decorrentes da transferência; seria absurdo se as rejeitássemos de modo indelicado e, o que seria pior, indignados com elas. Superamos a transferência mostrando ao paciente que seus sentimentos não se originam da situação atual e não se aplicam à pessoa do médico, mas sim que eles estão repetindo algo que lhe aconteceu anteriormente. Desse modo, obrigamo-lo a transformar a repetição em lembrança. Por esse meio, a transferência que, amorosa ou hostil, parecia de qualquer modo constituir a maior ameaça ao tratamento, torna-se seu melhor instrumento, com cujo auxílio os mais secretos compartimentos da vida mental podem ser abertos (FREUD).

Bom, análise é uma coisa. Na escola a situação muda muito. Segundo o que estudei em Psicologia da Educação o professor não tenta manter o lugar de vazio ao qual é submetido como faz o analista. O analista fica distante, o paciente nada sabe sobre ele, daí fica mais fácil colocá-lo em qualquer posição (mãe, pai, namorado). Ao contrário, o professor mostra seu desejo, se faz conhecer e deve dominar o jogo na sala de aula. Isso faz a transferência acabar? Sei lá, com o passar das aulas a professora tão legal às vezes fica insuportável ou não, você pode gostar dela mais ainda. E aquele carrasco que você odeia continua péssimo no mês seguinte. Isso ainda é pura transferência ou depois de "conhecer" o professor a gente passa a ter sentimentos "reais" por ele, afetividade condizente com a pessoa dele ou ainda é mera projeção de relações preexistentes? É preciso ler mais sobre isso, são muita dúvidas e no momento os amigos que poderiam pensar comigo estão tão longe...

A transferência pode aparecer como uma apaixonada exigência de amor, ou sob formas mais moderadas; em lugar de um desejo de ser amada, uma jovem pode deixar emergir um desejo, em relação a um homem, idoso, de ser recebida como filha predileta; o desejo libidinal pode estar atenuado num propósito de amizade inseparável, mas idealmente não-sensual. Algumas mulheres conseguem sublimar a transferência e moldá-la até que atinja essa espécie de viabilidade; outras hão de expressá-la em sua forma crua, original e, no geral, impossível. Mas, no fundo, é sempre a mesma, e jamais permite que haja equívoco quanto à sua origem na mesma fonte (FREUD).

Quem leu os outros textos do blog sabe onde eu quero chegar. A questão é se o que eu sinto pelo Sr. G é apenas transferência ou são sentimentos independentes causados pela pessoa real dele? Qual seria o limite entre amor de verdade e transferência? Afinal, como se diz, em toda relação há transferência, há idealização e sempre somos motivados por experiências afetivas anteriores. Não há como fugir disso.

Fui dormir pensando nessas questões. Então, sonhei que estava num carro com umas amigas. Estávamos conversando sobre a próxima prova do Sr. G. Num determinado momento o carro estava parado e a motorista havia descido do carro e seu banco estava inclinado, eu estava sentada atrás deste banco, mas não vou descer do veículo. Repentinamente, se aproxima do carro uma figura masculina. No meu campo de visão, que é a janela aberta do motorista, vejo uma calça social escura e esverdeada. O homem é robusto e a calça de caimento leve destaca o contorno dos órgãos sexuais. No instante seguinte ele se abaixa e faz uma pergunta. Levo então um grande susto, pois o tal era o Sr. G. Dou uma mistura de gritinho e risada ao mesmo tempo.

Acho que as leituras me estimularam muito, pois esse sonho foi bem diferente dos anteriores onde ele só passava indiferente e tal. Imagino que esse mistério do Sr. G ainda vai me fazer pensar muito. Depois quero escrever aqui umas coisas que anotei no início, quando ainda não sabia por que a figura dele me incomodava tanto.

Um comentário:

josépacheco disse...

Freud interessa-me imenso. Como sou professor, por outro lado, as questões que Florinha levanta acerca da «transferência e contra-transferência» na sala de aula também me parecem muito importantes; penso que a maioria dos professores não está minimamente consciente desse processo, não o sabe usar, ou usao-o inconscientemente. E perigosamente.Florinha, obrigado pelo seu comentário no meu blogue - acho linda esta comunicação, à volta de livros, a tão grande distância.