sábado, 6 de fevereiro de 2010

Para se apaixonar...

Fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes
Um mandarim estava apaixonado por uma cortesã. “Serei sua, disse ela, quando tiver passado cem noites a me esperar sentado num banquinho, no meu jardim, embaixo da minha janela.” Mas, na nonagésima nona noite, o mandarim se levantou, pôs o banquinho embaixo do braço e se foi. (BARTHES) Em Fragmentos de um discurso amoroso Roland Barthes parece ter montado um “manual” do sujeito enamorado. Talvez ele quisesse organizar parte do que se vive e que se pensa popularmente sobre a situação de enamoramento. Segundo Flávio Moreira da Costa, que tece um comentário na contracapa da oitava edição da tradução da obra publicada pela editora Francisco Alves, e cita Barthes em uma entrevista a Arlette Chabrol, do “Jornal do Brasil”: “O amor - ou a condição amorosa, os sentimentos amorosos é algo ao mesmo tempo muito presente no mundo e inteiramente demodé para a intelectualidade. Esta foi uma das razões, talvez a razão fundamental, objetiva, pela qual eu quis me interessar pelo assunto.” (1977) Sabe-se que Barthes era coloquialmente falando “do contra”. Ele gostava de ir contra o senso comum, de “nadar contra a corrente”. Se algum modismo direcionava as pessoas para um lugar, Barthes certamente seguiria direção oposta. Logo, escreveu este livro dedicado ao discurso amoroso, enquanto muitos poderiam considerar isso um tanto “ridículo”. Isso porque, segundo Barthes, a doxa “... difunde e gruda; é uma dominância legal, natural; é uma geléia geral, espalhada com as bênçãos do Poder; é um Discurso universal, um modo de jactância que já está de tocaia no simples fato de se tecer um discurso...”. Sabe-se também, e talvez isso se deva justamente a essa tendência que Barthes tinha de seguir contra a doxa, que ele escreveu sobre diversos assuntos até, por exemplo, sobre o strip-tease, no livro Mitologias, onde ele critica a sociedade francesa: O strip-tease – pelo menos o strip-tease parisiense – baseia-se numa contradição: dessexualiza a mulher no próprio instante em que a desnuda. Pode-se, pois, dizer que se trata, num certo sentido, de um espetáculo do medo, ou, mais exatamente, do “Faça-me medo”, como se o erotismo fosse, aqui ainda, uma espécie de terror delicioso, de que bastaria anunciar os signos rituais para provocar simultaneamente a idéia do sexo e a sua conjuração (BARTHES). Por conseguinte, em Fragmentos de um discurso amoroso, Barthes reúne parágrafos de muitos pensadores, a respeito do amor. Ele cita Baudelaire, Sartre, Balzac, Lacan, Proust, Nietzsche, Dostoievski, Flaubert, Gide, Hugo, Diderot, Freud, Goethe, Jakobson, Sade, Descartes, Rousseau, Compagnon, Safo, Platão... E o rol de grandes nomes poderia se estender pela página inteira. Além destes, Barthes se utiliza também de conversas com amigos e até mesmo de sua própria vida para compor o livro. Na primeira página, num pára-texto o autor explica que foi necessário escrever esse livro porque o discurso amoroso, apesar de ser usado por grande parte das pessoas, foi ignorado, abandonado e ironizado pelas outras linguagens. O “amor” foi excluído das ciências, artes e do poder de modo geral. De forma que só restou-lhe ser o lugar de uma “afirmação”, a qual é justamente o tema do livro. Barthes começa o livro assumindo o papel de “escrevente”: o primeiro tópico chama-se “Como é feito este livro”. Ele esclarece ao leitor o que se tem nas próximas páginas: uma escuta do eu, falando “de si mesmo, apaixonadamente, diante do outro (o objeto amado)...”. Porém, quando se inicia os fragmentos ele passa a escritor com suas afirmações ambíguas e nebulosas, próprias de seu estilo. Surpreendo a atopia do outro no seu rosto, cada vez que aí leio sua inocência, sua grande inocência: ele nada sabe do mal que me faz – ou, para dizê-lo com menos ênfase, do mal que ele me dá. (...) Neste momento, eu o dispensava de qualquer comentário. (...) Atópico, o outro faz tremer a linguagem: não se pode falar dele, sobre ele; todo atributo é falso, doloroso, desajeitado, embaraçoso: o outro é inqualificável (seria o verdadeiro sentido de atopos). (BARTHES) No momento do “amor a primeira vista”, o outro não sabe ou não presta atenção à observação do sujeito que se enamora, nem ao seu olhar fascinado. Ele ignora os pensamentos e a impressão que causa no último. Nesse primeiro encontro, é interessante notar que este ser que desperta a paixão do sujeito é um dentre milhares que responde a especialidade do seu desejo: “Não é todos os dias que se encontra o que é feito para lhe dar a imagem exata do seu desejo.” (Lacan). Outro fator que concorre para que o sujeito se apaixone é a surpresa, chamado por Barthes de “rapto”, ou seja, quando o sujeito é capturado pela imagem do ser amado: (...) O que me fascina, me rapta, é a imagem de um corpo em situação. O que me excita é uma silhueta trabalhando que não presta atenção em mim: (...) quanto mais o outro me proporciona os signos da sua ocupação, da sua indiferença (da minha ausência), mais tenho certeza de surpreendê-lo, como se, para me apaixonar, fosse preciso cumprir a formalidade ancestral do rapto, a saber a surpresa (surpreendo o outro, e por isso mesmo ele me surpreende: eu não esperava surpreendê-lo). (FREUD) E se acaso um sujeito for perguntado a respeito de um pretendente em potencial, se acaso recebe a pergunta: “Porque você não se envolve com ele (a)? Parece que neste momento a resposta não importa, porque o inconsciente receberá esse dado e o ligará a tantos outros, que depois daí pode resultar uma paixão: “INDUÇÃO. O ser amado é desejado porque um outro ou outros mostraram ao sujeito que ele é desejável: por mais especial que seja, o desejo amoroso é descoberto por indução.” (Barthes) Após o momento do “rapto”, ou seja, quando o vínculo amoroso já se encontra em evolução, diversos ruídos surgem, dos que Barthes levantou, gostaria de comentar alguns: Cena, Ciúme, Insuportável, Magia, Declaração e Identificações. Fazer uma cena pode ser brigar, discutir, chorar e até esconder o choro. A briga tem um caráter importante, posto que se o casal consegue reatar o que foi momentaneamente cortado na cena, o vínculo se torna mais forte. E quando se apresenta um tempo de calmaria, parece que a relação esfria, podendo ser aquecida pela cena. A briga também poderia indicar que os amantes alcançaram um nível de intimidade maior que progrediu desde o encontro inicial. Quando dois sujeitos brigam segundo uma troca ordenada de réplicas e tendo em vista obter a “última palavra”, esses dois sujeitos já estão casados: a cena é para eles o exercício de um direito, a prática de uma linguagem da qual eles são co-proprietários; um de cada vez, diz a cena, o que equivale a dizer nunca você, sem mim, e vice-versa. (...) (BARTHES) No discurso amoroso, as lágrimas podem cumprir dois papeis: por um lado são uma chantagem emocional se o sujeito mostra que chora: “Ao chorar, quero impressionar alguém, pressioná-lo (“Veja o que você faz de mim”)”(Schubert). E por outro, um jogo de grandeza versus humildade se pelo contrário o sujeito esconde que chorou: Imaginemos que eu tenha chorado, por causa de algum incidente do qual o outro nem mesmo se deu conta (chorar faz parte da atividade normal do corpo apaixonado), e que, para que não se veja, ponho óculos escuros nos meus olhos embaçados (...). A intenção do gesto é calculada: quero guardar o benefício moral do estoicismo (...), e ao mesmo tempo, contraditoriamente provocar a doce pergunta (“Mas o que é que você tem?”); quero ser ao mesmo tempo lamentável e admirável, quero ser no mesmo instante criança e adulto. (...) (BARTHES) Às vezes, o sujeito enamorado pode ficar “satisfeito” apenas em imaginar que vai pôr um fim à relação amorosa que o faz sofrer. Ao mesmo tempo, o sofrimento que lhe traz a idéia de rompimento (que é um rompimento consigo próprio), lhe dá dimensão da inviabilidade do projeto de separação. (...) Ao imaginar uma solução dolorosa (renunciar, partir, etc.), faço vibrar em mim a exaltada fantasia da saída; uma glória de abnegação me invade (renunciar ao amor, não à amizade, etc.) e esqueço logo aquilo que seria preciso então sacrificar: simplesmente minha loucura – que, por estatuto, não pode se constituir em objeto de sacrifício (...) (BARTHES) Para o sujeito apaixonado, ser ciumento é um defeito grave; não o ser também: “Quando amo, sou exclusivista”, diz Freud (que tomaremos como o modelo da normalidade). Ser ciumento é o comum. Recusar o ciúme (“ser perfeito”) é, portanto, transgredir uma lei.” (Barthes). É interessante observar como são abundantes os anúncios de adivinhos, cartomantes e ciganas, nos postes e muros da cidade, nos quais se propõem a resolver os problemas amorosos de terceiros. “MAGIA. Consultas mágicas, pequenos ritos secretos e ações de graças não estão ausentes da vida do sujeito apaixonado, qualquer que seja sua cultura.” (Barthes). Os apaixonados precisam falar do seu amor, descarregar a libido na linguagem. E falar de amor tem o seu objetivo no ato em si. “Falar amorosamente é gastar interminavelmente, sem crise; é praticar uma relação sem orgasmo...”, diz Barthes. Antes disso, ele cita um trecho sobre a linguagem, de Florbela Espanca, mas curiosamente não revela a fonte: “A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras. Minha linguagem treme de desejo.” Devoro com o olhar toda a rede amorosa e nela localizo o lugar que seria meu se dela fizesse parte. Percebo homologias e não analogias: constato, por exemplo, que sou para X... o que Y... é para Z; tudo o que me dizem de Y... me atinge diretamente; mesmo que a pessoa me seja indiferente, até desconhecida; estou preso num espelho que se desloca e que me capta em toda a parte onde houver uma estrutura dual. (...) (BARTHES) E por fim, temos as identificações no discurso do sujeito apaixonado. Não há, por exemplo, como estar apaixonado e não se ver no discurso deste “adorável” livro de Roland Barthes. (“Não conseguindo nomear a especialidade do seu desejo pelo ser amado, o sujeito apaixonado chega a essa palavra um pouco tola: adorável!”, diz Barthes). Referências: BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Trad. Hortência dos Santos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1988. ________________. Mitologias. Trad. Rita Buongermino e Pedro de Souza. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993. ________________. Roland Barthes por Roland Barthes. Trad. Jorge Constante Pereira e Isabel Gonçalves. Lisboa: Edições 70, 1976.

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