quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

10 Razões para não se ensinar Gramática

Por que (não) ensinar gramática na escola, de Sírio Possenti

Uma das motivações do autor para escrever os textos, que deram origem ao livro, me chamou a atenção justamente porque era o meu modo de pensar antes de começar a ler: “Outros insistiam que não sabiam gramática e que deveriam aprende-la para poder ensina-la nas escolas”. Logo na introdução, Sírio Possenti já nos dá uma pista que será comentada em quase todos os tópicos do livro: “Ensinar língua e ensinar gramática são duas coisas diferentes”. Na primeira parte do livro, Possenti defende dez teses básicas em relação ao ensino de língua materna: 1- O papel da escola é ensinar língua padrão. Apesar da língua ter vários dialetos, é como Possenti ressalta: “... os menos favorecidos socialmente só têm a ganhar com o domínio de outra forma de falar e de escrever”. 2- Damos aulas de que a quem? É preciso ter consciência dos processos gramaticais da língua, como também do processo de aprendizado de qualquer língua por um ser humano, o que não significa fazer exercícios repetitivos. 3- Não há línguas fáceis ou difíceis. Não existem línguas primitivas que sejam mais fáceis de se aprender. 4- Todos os que falam sabem falar. Possenti afirma que, mais importante que saber a gramática tradicional, é o conhecimento intuitivo do falante de determinada língua materna. 5- Não existem línguas uniformes. Em toda nação fatores externos à língua como: geográficos, de classe, de sexo, de idade, etc, influenciam diferentes modos de falar. 6- Não existem línguas imutáveis. Algumas formas da língua padrão caem em desuso até para as chamados pessoas cultas. 7- Falamos mais corretamente do que pensamos. O número de erros que cometemos usando a língua é bem maior do que os tipos de erros. 8- Língua não se ensina, aprende-se. As escolas deveriam levar em consideração o quanto os alunos já sabem sobre língua e dar mais ênfase na escrita e leitura do português padrão. 9- Sabemos o que os alunos ainda não sabem? Segundo Possenti, na nossa formação como professores aprendemos a elaborar planos de cursos que são na verdade uma “papelada inútil”. A forma mais eficiente é fazer primeiro um levantamento direto sobre o que falta ensinar aos alunos de determinada série. Parece uma idéia realmente muito óbvia, como o autor já ressalta, mas que com certeza não é comumente utilizada nas escolas. 10- Ensinar língua ou ensinar gramática? O título do livro refere-se à idéia de que se os alunos dominam a língua portuguesa como língua materna, logo não precisam aprender na escola uma “metalinguagem técnica”. Já na segunda parte do livro, o autor apresenta três conceitos de gramática: normativa, descritiva e internalizada. E conclui, resumindo o livro com uma única idéia: “que o ensino de português deixe de ser visto como a transmissão de conteúdos prontos, e passe a ser uma tarefa de construção de conhecimentos por parte dos alunos...”. Esse livro mudou minha concepção de ensino de língua portuguesa. Apenas o título já me deu um alívio enorme, pois nunca gostei de estudar gramática normativa e não gostaria de ter de ensiná-la algum dia. Pessoalmente já tinha planos caso chegasse de fato à docência, se fosse possível, dar maior ênfase ao texto e à literatura que à gramática. Apesar de ter cursado na Faculdade de Letras as disciplinas de Linguística, Morfologia, Sintaxe, Semântica e Estudos da Linguagem, eu acreditava que o objetivo da escola é (ou deveria ser) apenas ensinar a análise técnica da língua. Agora compreendo a ausência de questões objetivas sobre gramática no vestibular da UFMG e creio que é uma idéia muito acertada com o objetivo ideal da escola (ou da escola ideal): ensinar língua padrão e não regras gramaticais. Os obstáculos destas propostas de ensino talvez estejam mais centrados na sua prática que em sua pertinência teórica. O professor que decidir seguir esse novo caminho de se ensinar língua e não gramática normativa, terá dificuldades pontuais do tipo: como passar aos alunos os conteúdos de gramática que eles ainda não sabem, de modo não metalinguístico? Contudo, mesmo diante de problemas como este da prática, acredito nessas propostas, considero o quanto elas são difíceis, mas também necessárias para que o ensino do português seja mais viável, eficiente e agradável (ou no mínimo tolerável) para os alunos e também para nós, futuros professores.

Nenhum comentário: