terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Atração ou Transferência

Na noite passada senti vontade de ler sobre a transferência na obra de Freud. Encontrei um texto chamado conferência 27: Transferência no volume 16. Rudemente a transferência pode ser definida como um investimento libidinal do paciente na figura do analista e também do aluno no professor. É engraçado quando Freud conta sobre o descobrimento deste fenômeno, ele afirma que sabia não ser tão atraente assim para causar apaixonites em todas as suas pacientes, rs. Depois ele explica que os sentimentos suscitados na transferência nada têm a ver com o analista. E eu fiquei pensando, mas e quando eles têm a ver? E quando o analista além de tudo é bonito (como o professor de psicanálise que tive... muito gato, recém formado, tinha vinte e poucos anos, sorrisão, cabelos pretos fartos, barbinha charmosa, alto... ele dizia que passava apertado com as pacientes bonitas). Isso muda alguma coisa? E quando o analista resolve interagir com a chamada contratransferência? Dizem que muitos casais já se formaram assim, eles apenas param o tratamento e vão ser felizes.

Quando, porém, semelhante vinculação amorosa por parte do paciente em relação ao médico se repete com regularidade em cada novo caso, quando surge sempre novamente sob as condições mais desfavoráveis e onde existem incongruências positivamente esquisitas, até mesmo quando senhoras de idade madura se apaixonam por homens de barba grisalha, até mesmo onde, conforme julgamos, não há nada, de espécie alguma, capaz de atrair - então devemos abandonar a idéia de uma perturbação casual e reconhecer que estamos lidando com um fenômeno intimamente ligado à natureza da própria doença (FREUD).

O estabelecimento da transferência é uma condição essencial na análise:

Para nós é impossível ceder às exigências do paciente, decorrentes da transferência; seria absurdo se as rejeitássemos de modo indelicado e, o que seria pior, indignados com elas. Superamos a transferência mostrando ao paciente que seus sentimentos não se originam da situação atual e não se aplicam à pessoa do médico, mas sim que eles estão repetindo algo que lhe aconteceu anteriormente. Desse modo, obrigamo-lo a transformar a repetição em lembrança. Por esse meio, a transferência que, amorosa ou hostil, parecia de qualquer modo constituir a maior ameaça ao tratamento, torna-se seu melhor instrumento, com cujo auxílio os mais secretos compartimentos da vida mental podem ser abertos (FREUD).

Bom, análise é uma coisa. Na escola a situação muda muito. Segundo o que estudei em Psicologia da Educação o professor não tenta manter o lugar de vazio ao qual é submetido como faz o analista. O analista fica distante, o paciente nada sabe sobre ele, daí fica mais fácil colocá-lo em qualquer posição (mãe, pai, namorado). Ao contrário, o professor mostra seu desejo, se faz conhecer e deve dominar o jogo na sala de aula. Isso faz a transferência acabar? Sei lá, com o passar das aulas a professora tão legal às vezes fica insuportável ou não, você pode gostar dela mais ainda. E aquele carrasco que você odeia continua péssimo no mês seguinte. Isso ainda é pura transferência ou depois de "conhecer" o professor a gente passa a ter sentimentos "reais" por ele, afetividade condizente com a pessoa dele ou ainda é mera projeção de relações preexistentes? É preciso ler mais sobre isso, são muita dúvidas e no momento os amigos que poderiam pensar comigo estão tão longe...

A transferência pode aparecer como uma apaixonada exigência de amor, ou sob formas mais moderadas; em lugar de um desejo de ser amada, uma jovem pode deixar emergir um desejo, em relação a um homem, idoso, de ser recebida como filha predileta; o desejo libidinal pode estar atenuado num propósito de amizade inseparável, mas idealmente não-sensual. Algumas mulheres conseguem sublimar a transferência e moldá-la até que atinja essa espécie de viabilidade; outras hão de expressá-la em sua forma crua, original e, no geral, impossível. Mas, no fundo, é sempre a mesma, e jamais permite que haja equívoco quanto à sua origem na mesma fonte (FREUD).

Quem leu os outros textos do blog sabe onde eu quero chegar. A questão é se o que eu sinto pelo Sr. G é apenas transferência ou são sentimentos independentes causados pela pessoa real dele? Qual seria o limite entre amor de verdade e transferência? Afinal, como se diz, em toda relação há transferência, há idealização e sempre somos motivados por experiências afetivas anteriores. Não há como fugir disso.

Fui dormir pensando nessas questões. Então, sonhei que estava num carro com umas amigas. Estávamos conversando sobre a próxima prova do Sr. G. Num determinado momento o carro estava parado e a motorista havia descido do carro e seu banco estava inclinado, eu estava sentada atrás deste banco, mas não vou descer do veículo. Repentinamente, se aproxima do carro uma figura masculina. No meu campo de visão, que é a janela aberta do motorista, vejo uma calça social escura e esverdeada. O homem é robusto e a calça de caimento leve destaca o contorno dos órgãos sexuais. No instante seguinte ele se abaixa e faz uma pergunta. Levo então um grande susto, pois o tal era o Sr. G. Dou uma mistura de gritinho e risada ao mesmo tempo.

Acho que as leituras me estimularam muito, pois esse sonho foi bem diferente dos anteriores onde ele só passava indiferente e tal. Imagino que esse mistério do Sr. G ainda vai me fazer pensar muito. Depois quero escrever aqui umas coisas que anotei no início, quando ainda não sabia por que a figura dele me incomodava tanto.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Metalinguagem

Percebi um ato falho nesse blog esses dias. Já mudei o título umas três vezes. Esse último, Literatura e Confissão, me deixou muito satisfeita. É perfeito, porque são exatamente os dois temas que mais pretendo escrever aqui. Contudo, esse título me parecia familiar. Mas pensava que não podia tê-lo visto em outro lugar, eu o inventei, já que pretendo escrever sobre literatura, minha paixão e confessar coisas íntimas. O título é só idéia minha, pensava.

Então, me lembrei de um livro Ficção e Confissão, de Antonio Candido. Justamente de Teoria e Crítica literária e sobre quem? Um dos meus autores preferidos, Graciliano Ramos. Nesse livro, Candido analisa toda a obra de Graciliano. De modo geral ele conclui se tratar de uma obra que começou na ficção e foi cada fez mais se aproximando da autobiografia, da confissão. Foi um livro básico na minha formação.

O inconsciente sempre nos surpreende, não é mesmo? Como pude esquecer? É como se eu nunca deixasse de pensar no velho Graça e na teoria, ao planejar um blog sobre literatura. Ao descobrir esse ato falho fiquei mais satisfeita ainda com meu título.

Antonio Candido e capa do livro:

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Hábitos noturnos

Desde que minhas "férias" começaram, aliás, desde que entreguei a monografia, tenho dormido e acordado bem tarde. Eu sei que não tenho insônia. A questão é que nunca gostei de dormir cedo. Desde criança eu ficava apenas pensando ao invés de dormir. Pensava em tudo. Só forçava o sono com medo dos monstrinhos coloridos que começavam a pular no sofá que ficava na sala, no meu campo de visão, rs.

Sempre senti que a noite é o melhor momento. Depois das 11 minha mente sempre fica mais lúcida. É como se tudo fosse preto e branco durante o dia e à noite tudo fizesse sentido. Odeio ler de dia, dá sono. Já de noite é sempre ótimo, a leitura flui, a escrita flui. Sou viciada em ler de madrugada desde os 12 anos, quando obtive um quarto individual. Antes era obrigada a apagar a luz para que minha irmã dormisse.

A partir dos 18 tive seis anos de estudos à noite que me estimularam muito. Primeiro as aulas de física, história e literatura, no cursinho pré-vestibular. Fascinante, era impossível chegar e dormir direto. E depois veio a faculdade. Lembro-me como as primeiras aulas de Teoria da Literatura me deixaram doidinha, rs. A indefinição do conceito de literatura queimava os miolos.

Há algum tempo conversei com um calouro que me fez rir muito. Ele estava revoltado com essa questão da literatura e citava tudo o que o professor havia dito que a literatura não era. E aí ele dizia, - Mas e então? O que é literatura afinal? – Parecia que ele estava sendo enganado, injuriado, rs. Como veterana, fiquei com vontade de lhe dar alguma explicação. Mas na verdade não podia, porque a literatura é assim, provocação, jogo. É admirável como os professores conseguem mexer com os calouros. O início do curso é um divisor de águas. Ou você se deixa seduzir pela Literatura ou você se revolta e vai se refugiar na Linguística. Mas essa última também não é muito confiável, apenas possuiu teorias e abordagens que dão uma sensação de maior segurança. Enfim, os muito neuróticos não dão conta de seguir a Literatura.

Não sei como um papo sobre insônia foi parar em literatura. Na verdade a insônia já foi motivo para a produção de muitas obras. Mas como disse, eu não tenho insônia. Sempre odiei dormir cedo. Só durmo cedo quando estou numa rotina de estudar ou trabalhar pela manhã. Fora isso é impossível. Eu consigo evitar doces, consigo parar de beber, consigo esquecer um amor, mas não consigo dormir cedo espontaneamente. A insônia é um vício. Assim como a literatura. Mas serei uma pessoa "normal", porque pretendo trabalhar no período da manhã em breve.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Dia das postagens pílula

E como diria Pato Fu "O mundo é um grande pão com manteiga café e com leite".

Loucura

Há coisas que a gente não diz, nem pensa – só escreve.

Vida

Às vezes tenho medo de viver errado.

Para quê a gente tenta viver Guimarães Rosa se a vida na verdade é Graciliano Ramos?

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Sonho de aluno

Sempre sonho com as aulas no período das férias. Esses sonhos típicos de estudante. E mesmo tendo me formado os sonhos continuam. Geralmente são sonhos de desespero, onde não sei a matéria e é dia de prova. Ou então há tantos textos pra ler e trabalhos pra fazer que fico louca. Mas sinto que estou tendo algum progresso. No sonho de hoje eu estava numa sala de aula, quase vazia, coloco uns livros e um fichário numa carteira e sento em outra. Daí um cara, que parece o funcionário Jorge mal humorado dos multimeios (da faculdade), vai saindo da sala e fala que está na hora do lanche e me pergunta o que eu estou fazendo ali? Eu respondo com bastante enfado: Nada! E levanto da carteira, como se pensasse: Que que eu to fazendo nesse sonho ridículo? E ainda vejo um ex meu com quem realmente não topo (da época de colegio), sentado numa das carteiras com a cara de idiota insolente de sempre.

Pequi - Fruta Típica

Para quem conhece essa fruta do cerrado, gostaria de apresentar uma sobremesa adorável, que é o doce de Pequi.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

E se ele for ruim de cama?

Segundo o site da Revista Nova, há 10 dicas para se saber se o cara é ruim de cama antes de você se dar mal (literalmente, né):
1-Vai rápido demais ao ponto 2-Não sabe beijar direito 3-Bebe demais ou usa drogas 4-É desengonçado ao dançar 5-Só fala sobre si mesmo 6-Promete sexo daqueles 7-Não sabe onde é o clitóris 8-Duvida que a mulher chegue lá 9-Reclama da sorte no amor 10-Come de boca aberta
Alguns desses itens são bem engraçados...
Me sinto perdida, na verdade desesperada. Para todo lado que olho é só homem nada a ver. A grande maioria se enquadra no mínimo em três itens dessa lista. E esses nem são todos os problemas. Acho que nunca vou conhecer um cara adequado.
A sensação que tenho é de que mesmo que eu me dispusesse a experimentar o máximo de homens, o que seria suicídio social, encontrarei apenas um que sirva. E esse único vai ser daquela classe que desaparece no dia seguinte para sempre (só para se vingar das mulheres, aff).

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Unheimlich

Estava olhando fotos do escritor Lobo Antunes e achei essas tão sexy... Repare no olhar, na boca séria.
Confesso que tinha medo dele porque não consegui terminar de ler Os cus de Judas, comecei a passar mal lá pela letra S. Essas fotos apesar de não serem atuais, mudaram meu conceito. Ele me parece tão “unheimlich”, no sentido estranho e familiar ao mesmo tempo (vide O Estranho, de Freud, vol. 17). Parece um psicopata e ao mesmo tempo um adorável cafajeste. Tem algo do Mr. Big de Sexy and the city e em última análise lembra aquele Prof. G. Vejamos o Mr. Big:

Se Barthes estiver certo quando afirma que o amor vem por indução (vide Fragmentos de um discurso amoroso), então acho que matei a charada. Num dos primeiros dias de aula do Sr. G, ele comentou sobre esse conceito do “unheimlich”. E eu estava meio que com medo dele, ele é estranho mesmo. Ele disse que algo “unheimlich” pode causar por exemplo, medo e atração ao mesmo tempo. Pode ter nascido aí. Ele próprio me induziu. Ou apenas me seduziu? Com definições de termos psicanalíticos...

Bom, na verdade lendo O Estranho eu não vi essa possibilidade de definição, contudo, não posso dizer que está errado pois não sou estudante de língua Alemã. Posso apenas citar duas definições freudianas: "o estranho é aquela categoria do assustador que remete ao que é conhecido, de velho, e há muito familiar" e "esse estranho não é nada novo ou alheio, porém algo que é familiar e há muito estabelecido na mente, e que somente se alienou desta através do processo da repressão". Nada atraente.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Para se apaixonar...

Fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes
Um mandarim estava apaixonado por uma cortesã. “Serei sua, disse ela, quando tiver passado cem noites a me esperar sentado num banquinho, no meu jardim, embaixo da minha janela.” Mas, na nonagésima nona noite, o mandarim se levantou, pôs o banquinho embaixo do braço e se foi. (BARTHES) Em Fragmentos de um discurso amoroso Roland Barthes parece ter montado um “manual” do sujeito enamorado. Talvez ele quisesse organizar parte do que se vive e que se pensa popularmente sobre a situação de enamoramento. Segundo Flávio Moreira da Costa, que tece um comentário na contracapa da oitava edição da tradução da obra publicada pela editora Francisco Alves, e cita Barthes em uma entrevista a Arlette Chabrol, do “Jornal do Brasil”: “O amor - ou a condição amorosa, os sentimentos amorosos é algo ao mesmo tempo muito presente no mundo e inteiramente demodé para a intelectualidade. Esta foi uma das razões, talvez a razão fundamental, objetiva, pela qual eu quis me interessar pelo assunto.” (1977) Sabe-se que Barthes era coloquialmente falando “do contra”. Ele gostava de ir contra o senso comum, de “nadar contra a corrente”. Se algum modismo direcionava as pessoas para um lugar, Barthes certamente seguiria direção oposta. Logo, escreveu este livro dedicado ao discurso amoroso, enquanto muitos poderiam considerar isso um tanto “ridículo”. Isso porque, segundo Barthes, a doxa “... difunde e gruda; é uma dominância legal, natural; é uma geléia geral, espalhada com as bênçãos do Poder; é um Discurso universal, um modo de jactância que já está de tocaia no simples fato de se tecer um discurso...”. Sabe-se também, e talvez isso se deva justamente a essa tendência que Barthes tinha de seguir contra a doxa, que ele escreveu sobre diversos assuntos até, por exemplo, sobre o strip-tease, no livro Mitologias, onde ele critica a sociedade francesa: O strip-tease – pelo menos o strip-tease parisiense – baseia-se numa contradição: dessexualiza a mulher no próprio instante em que a desnuda. Pode-se, pois, dizer que se trata, num certo sentido, de um espetáculo do medo, ou, mais exatamente, do “Faça-me medo”, como se o erotismo fosse, aqui ainda, uma espécie de terror delicioso, de que bastaria anunciar os signos rituais para provocar simultaneamente a idéia do sexo e a sua conjuração (BARTHES). Por conseguinte, em Fragmentos de um discurso amoroso, Barthes reúne parágrafos de muitos pensadores, a respeito do amor. Ele cita Baudelaire, Sartre, Balzac, Lacan, Proust, Nietzsche, Dostoievski, Flaubert, Gide, Hugo, Diderot, Freud, Goethe, Jakobson, Sade, Descartes, Rousseau, Compagnon, Safo, Platão... E o rol de grandes nomes poderia se estender pela página inteira. Além destes, Barthes se utiliza também de conversas com amigos e até mesmo de sua própria vida para compor o livro. Na primeira página, num pára-texto o autor explica que foi necessário escrever esse livro porque o discurso amoroso, apesar de ser usado por grande parte das pessoas, foi ignorado, abandonado e ironizado pelas outras linguagens. O “amor” foi excluído das ciências, artes e do poder de modo geral. De forma que só restou-lhe ser o lugar de uma “afirmação”, a qual é justamente o tema do livro. Barthes começa o livro assumindo o papel de “escrevente”: o primeiro tópico chama-se “Como é feito este livro”. Ele esclarece ao leitor o que se tem nas próximas páginas: uma escuta do eu, falando “de si mesmo, apaixonadamente, diante do outro (o objeto amado)...”. Porém, quando se inicia os fragmentos ele passa a escritor com suas afirmações ambíguas e nebulosas, próprias de seu estilo. Surpreendo a atopia do outro no seu rosto, cada vez que aí leio sua inocência, sua grande inocência: ele nada sabe do mal que me faz – ou, para dizê-lo com menos ênfase, do mal que ele me dá. (...) Neste momento, eu o dispensava de qualquer comentário. (...) Atópico, o outro faz tremer a linguagem: não se pode falar dele, sobre ele; todo atributo é falso, doloroso, desajeitado, embaraçoso: o outro é inqualificável (seria o verdadeiro sentido de atopos). (BARTHES) No momento do “amor a primeira vista”, o outro não sabe ou não presta atenção à observação do sujeito que se enamora, nem ao seu olhar fascinado. Ele ignora os pensamentos e a impressão que causa no último. Nesse primeiro encontro, é interessante notar que este ser que desperta a paixão do sujeito é um dentre milhares que responde a especialidade do seu desejo: “Não é todos os dias que se encontra o que é feito para lhe dar a imagem exata do seu desejo.” (Lacan). Outro fator que concorre para que o sujeito se apaixone é a surpresa, chamado por Barthes de “rapto”, ou seja, quando o sujeito é capturado pela imagem do ser amado: (...) O que me fascina, me rapta, é a imagem de um corpo em situação. O que me excita é uma silhueta trabalhando que não presta atenção em mim: (...) quanto mais o outro me proporciona os signos da sua ocupação, da sua indiferença (da minha ausência), mais tenho certeza de surpreendê-lo, como se, para me apaixonar, fosse preciso cumprir a formalidade ancestral do rapto, a saber a surpresa (surpreendo o outro, e por isso mesmo ele me surpreende: eu não esperava surpreendê-lo). (FREUD) E se acaso um sujeito for perguntado a respeito de um pretendente em potencial, se acaso recebe a pergunta: “Porque você não se envolve com ele (a)? Parece que neste momento a resposta não importa, porque o inconsciente receberá esse dado e o ligará a tantos outros, que depois daí pode resultar uma paixão: “INDUÇÃO. O ser amado é desejado porque um outro ou outros mostraram ao sujeito que ele é desejável: por mais especial que seja, o desejo amoroso é descoberto por indução.” (Barthes) Após o momento do “rapto”, ou seja, quando o vínculo amoroso já se encontra em evolução, diversos ruídos surgem, dos que Barthes levantou, gostaria de comentar alguns: Cena, Ciúme, Insuportável, Magia, Declaração e Identificações. Fazer uma cena pode ser brigar, discutir, chorar e até esconder o choro. A briga tem um caráter importante, posto que se o casal consegue reatar o que foi momentaneamente cortado na cena, o vínculo se torna mais forte. E quando se apresenta um tempo de calmaria, parece que a relação esfria, podendo ser aquecida pela cena. A briga também poderia indicar que os amantes alcançaram um nível de intimidade maior que progrediu desde o encontro inicial. Quando dois sujeitos brigam segundo uma troca ordenada de réplicas e tendo em vista obter a “última palavra”, esses dois sujeitos já estão casados: a cena é para eles o exercício de um direito, a prática de uma linguagem da qual eles são co-proprietários; um de cada vez, diz a cena, o que equivale a dizer nunca você, sem mim, e vice-versa. (...) (BARTHES) No discurso amoroso, as lágrimas podem cumprir dois papeis: por um lado são uma chantagem emocional se o sujeito mostra que chora: “Ao chorar, quero impressionar alguém, pressioná-lo (“Veja o que você faz de mim”)”(Schubert). E por outro, um jogo de grandeza versus humildade se pelo contrário o sujeito esconde que chorou: Imaginemos que eu tenha chorado, por causa de algum incidente do qual o outro nem mesmo se deu conta (chorar faz parte da atividade normal do corpo apaixonado), e que, para que não se veja, ponho óculos escuros nos meus olhos embaçados (...). A intenção do gesto é calculada: quero guardar o benefício moral do estoicismo (...), e ao mesmo tempo, contraditoriamente provocar a doce pergunta (“Mas o que é que você tem?”); quero ser ao mesmo tempo lamentável e admirável, quero ser no mesmo instante criança e adulto. (...) (BARTHES) Às vezes, o sujeito enamorado pode ficar “satisfeito” apenas em imaginar que vai pôr um fim à relação amorosa que o faz sofrer. Ao mesmo tempo, o sofrimento que lhe traz a idéia de rompimento (que é um rompimento consigo próprio), lhe dá dimensão da inviabilidade do projeto de separação. (...) Ao imaginar uma solução dolorosa (renunciar, partir, etc.), faço vibrar em mim a exaltada fantasia da saída; uma glória de abnegação me invade (renunciar ao amor, não à amizade, etc.) e esqueço logo aquilo que seria preciso então sacrificar: simplesmente minha loucura – que, por estatuto, não pode se constituir em objeto de sacrifício (...) (BARTHES) Para o sujeito apaixonado, ser ciumento é um defeito grave; não o ser também: “Quando amo, sou exclusivista”, diz Freud (que tomaremos como o modelo da normalidade). Ser ciumento é o comum. Recusar o ciúme (“ser perfeito”) é, portanto, transgredir uma lei.” (Barthes). É interessante observar como são abundantes os anúncios de adivinhos, cartomantes e ciganas, nos postes e muros da cidade, nos quais se propõem a resolver os problemas amorosos de terceiros. “MAGIA. Consultas mágicas, pequenos ritos secretos e ações de graças não estão ausentes da vida do sujeito apaixonado, qualquer que seja sua cultura.” (Barthes). Os apaixonados precisam falar do seu amor, descarregar a libido na linguagem. E falar de amor tem o seu objetivo no ato em si. “Falar amorosamente é gastar interminavelmente, sem crise; é praticar uma relação sem orgasmo...”, diz Barthes. Antes disso, ele cita um trecho sobre a linguagem, de Florbela Espanca, mas curiosamente não revela a fonte: “A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras. Minha linguagem treme de desejo.” Devoro com o olhar toda a rede amorosa e nela localizo o lugar que seria meu se dela fizesse parte. Percebo homologias e não analogias: constato, por exemplo, que sou para X... o que Y... é para Z; tudo o que me dizem de Y... me atinge diretamente; mesmo que a pessoa me seja indiferente, até desconhecida; estou preso num espelho que se desloca e que me capta em toda a parte onde houver uma estrutura dual. (...) (BARTHES) E por fim, temos as identificações no discurso do sujeito apaixonado. Não há, por exemplo, como estar apaixonado e não se ver no discurso deste “adorável” livro de Roland Barthes. (“Não conseguindo nomear a especialidade do seu desejo pelo ser amado, o sujeito apaixonado chega a essa palavra um pouco tola: adorável!”, diz Barthes). Referências: BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Trad. Hortência dos Santos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1988. ________________. Mitologias. Trad. Rita Buongermino e Pedro de Souza. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993. ________________. Roland Barthes por Roland Barthes. Trad. Jorge Constante Pereira e Isabel Gonçalves. Lisboa: Edições 70, 1976.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

10 Razões para não se ensinar Gramática

Por que (não) ensinar gramática na escola, de Sírio Possenti

Uma das motivações do autor para escrever os textos, que deram origem ao livro, me chamou a atenção justamente porque era o meu modo de pensar antes de começar a ler: “Outros insistiam que não sabiam gramática e que deveriam aprende-la para poder ensina-la nas escolas”. Logo na introdução, Sírio Possenti já nos dá uma pista que será comentada em quase todos os tópicos do livro: “Ensinar língua e ensinar gramática são duas coisas diferentes”. Na primeira parte do livro, Possenti defende dez teses básicas em relação ao ensino de língua materna: 1- O papel da escola é ensinar língua padrão. Apesar da língua ter vários dialetos, é como Possenti ressalta: “... os menos favorecidos socialmente só têm a ganhar com o domínio de outra forma de falar e de escrever”. 2- Damos aulas de que a quem? É preciso ter consciência dos processos gramaticais da língua, como também do processo de aprendizado de qualquer língua por um ser humano, o que não significa fazer exercícios repetitivos. 3- Não há línguas fáceis ou difíceis. Não existem línguas primitivas que sejam mais fáceis de se aprender. 4- Todos os que falam sabem falar. Possenti afirma que, mais importante que saber a gramática tradicional, é o conhecimento intuitivo do falante de determinada língua materna. 5- Não existem línguas uniformes. Em toda nação fatores externos à língua como: geográficos, de classe, de sexo, de idade, etc, influenciam diferentes modos de falar. 6- Não existem línguas imutáveis. Algumas formas da língua padrão caem em desuso até para as chamados pessoas cultas. 7- Falamos mais corretamente do que pensamos. O número de erros que cometemos usando a língua é bem maior do que os tipos de erros. 8- Língua não se ensina, aprende-se. As escolas deveriam levar em consideração o quanto os alunos já sabem sobre língua e dar mais ênfase na escrita e leitura do português padrão. 9- Sabemos o que os alunos ainda não sabem? Segundo Possenti, na nossa formação como professores aprendemos a elaborar planos de cursos que são na verdade uma “papelada inútil”. A forma mais eficiente é fazer primeiro um levantamento direto sobre o que falta ensinar aos alunos de determinada série. Parece uma idéia realmente muito óbvia, como o autor já ressalta, mas que com certeza não é comumente utilizada nas escolas. 10- Ensinar língua ou ensinar gramática? O título do livro refere-se à idéia de que se os alunos dominam a língua portuguesa como língua materna, logo não precisam aprender na escola uma “metalinguagem técnica”. Já na segunda parte do livro, o autor apresenta três conceitos de gramática: normativa, descritiva e internalizada. E conclui, resumindo o livro com uma única idéia: “que o ensino de português deixe de ser visto como a transmissão de conteúdos prontos, e passe a ser uma tarefa de construção de conhecimentos por parte dos alunos...”. Esse livro mudou minha concepção de ensino de língua portuguesa. Apenas o título já me deu um alívio enorme, pois nunca gostei de estudar gramática normativa e não gostaria de ter de ensiná-la algum dia. Pessoalmente já tinha planos caso chegasse de fato à docência, se fosse possível, dar maior ênfase ao texto e à literatura que à gramática. Apesar de ter cursado na Faculdade de Letras as disciplinas de Linguística, Morfologia, Sintaxe, Semântica e Estudos da Linguagem, eu acreditava que o objetivo da escola é (ou deveria ser) apenas ensinar a análise técnica da língua. Agora compreendo a ausência de questões objetivas sobre gramática no vestibular da UFMG e creio que é uma idéia muito acertada com o objetivo ideal da escola (ou da escola ideal): ensinar língua padrão e não regras gramaticais. Os obstáculos destas propostas de ensino talvez estejam mais centrados na sua prática que em sua pertinência teórica. O professor que decidir seguir esse novo caminho de se ensinar língua e não gramática normativa, terá dificuldades pontuais do tipo: como passar aos alunos os conteúdos de gramática que eles ainda não sabem, de modo não metalinguístico? Contudo, mesmo diante de problemas como este da prática, acredito nessas propostas, considero o quanto elas são difíceis, mas também necessárias para que o ensino do português seja mais viável, eficiente e agradável (ou no mínimo tolerável) para os alunos e também para nós, futuros professores.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Tolices - Pato Fu

São tolices que penso sobre você Você não pensa em mim Porque andamos na mesma rua Vivo sonhando imaginando você Imagino pegadas e as vou seguindo É tolice eu sei Você não sente os meus passos Mas eu imagino Mas eu imagino É tolice eu sei Você não sente os meus passos Mas eu imagino Mas eu imagino... São tolices que penso sobre você Você não pensa em mim Porque andamos na mesma rua Vivo sonhando imaginando você Imagino pegadas e as vou seguindo Um olá talvez Mas pra mim de nada vale Isso estragaria O meu faz de conta É tolice eu sei Você não sente os meus passos Mas eu imagino Mas eu imagino...

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Sonho constrangedor

Essa semana tive um sonho muito inquietante. Sonhei que o Sr. L tinha três pretendentes: eu, minha amiga Srta. J e uma desconhecida delicada. E ele me escolhe, fico muito contente, tiramos fotos, nos abraçamos. O Sr. L é alguém por quem senti uma queda mas com quem não tive nada. Ele me jogava diversas cantadinhas em forma de brincadeira ou indiretas picantes bem humoradas. E eu ria. Era só isso. Acontece que esse sonho parece estar relacionado a um sentimento mais antigo, lá na infância, de preterimento. Na verdade a posição que o Sr. L ocupa no sonho poderia ser ocupada por qualquer pessoa que eu gostasse e de quem eu gostaria de ser a preferida. Está relacionado ao Sr. Garotinho da minha infância, que me preteriu por duas amigas. Está relacionado ao Sr. Tenho namorada que largou a namorada para ficar comigo e depois voltou pra ela. Está relacionado ao Prof. G de quem eu gostaria de ser a preferida. Está relacionado às amigas que me preteriram a outras. E talvez até aos meus pais, que a gente sempre tem a sensação de que eles preferem um de nossos irmãos que não a gente, não é? É um sentimento muito ruim, comum e arraigadamente infantil. De quem a mamãe gosta mais? Deve ser uma pergunta corriqueira da infância. É difícil escrever sobre isso. Porque também é um sentimento que parece ser muito errado, algo do qual eu deveria me envergonhar. Mas acho que já chega de recalque, já que veio à tona... Pois é, e recentemente é como se eu tivesse vivido essa situação pela milionésima vez. O tal Sr. L do sonho, que está solteiro no momento, teria confessado à um amigo em comum que está gostando de nossa amiga com namoro em crise. Mesmo namorando e não tendo nada com ele é como se eu tivesse sido preterida novamente. Claro que não comentei nada disso com eles, não poderia nem me sentir assim, tenho namorado, que aliás, é muito mais bonito e legal que o Sr. L. Mas não dá pra escolher o que se vai sentir! Ah, é uma história tão confusa, eu teria que contar os detalhes desde o início de como conheci esse grupo de amigos e a forma negativa como nossa amiga escolhida reagia às cantadinhas que o Sr. L me passava. E a Srta. J do sonho é outra amiga que em vários momentos me preteriu. Vingança? A verdade é que tudo pode ser resumido numa necessidade infantil de ser a preferida. (Ou namoradinha do papai).

Você ainda acredita em deus?

Um momento que considero muito importante na minha vida foi quando cheguei à conclusão de que deus não existe. Não consigo entender como pode haver tanta gente inteligente por aí acreditando em coisas assim. E eles ainda gostam de dizer: você não pode provar que deus não existe! E você? Pode provar que o Coelhinho da Páscoa, o Papai Noel e o Curupira não existem? Que gente mais idiota. Com todo respeito ao caríssimo leitor “temente a deus”, mas aqui eu não vou medir as palavras, estou cansada de sofrer preconceito por ser ateísta. O mínimo que eu posso dizer é: vocês são um bando de neuróticos com delírios de onipotência! Vou me acalmar agora. Eu não quero, nem preciso, que ninguém deixe de acreditar em deus só porque eu não acredito. Eu sei que tem gente que realmente precisa acreditar em deus, precisa crer que há alguém ajudando eles, que toda essa injustiça no mundo tem um sentido e que um dia irão para o paraíso. Mas eu não preciso, ok? Respeitem isso que eu respeito vocês. No dia que precisar eu arrumo alguma coisa nesse sentido. Do jeito que está eu estou conformada, não preciso acreditar que existe um céu com anjinhos para não temer a morte. Morrer é ruim mesmo, principalmente quando não é a gente que morre e sim alguém querido. Mas essas coisas não me ajudam, não me consolam, não fazem sentido pra mim. Eu não sou uma pessoa ruim, até já fui religiosa. Apenas parei pra pensar nisso tudo e vi que era tudo hipocrisia, ferramenta para manipular as pessoas. Não gosto disso. E fico triste de pensar que a maioria das pessoas acredita e sofre com essas idéias. Mas eu não posso fazer nada. Infelizmente eu não acredito que existe um ser superior que controla tudo e que se eu pedisse ele me atenderia e iluminaria o coração de vocês para que vocês se libertem. Isso não existe, cada um é que tem que se libertar dos próprios fantasmas, rituais, pensamentos obsessivos, idéias mágicas e superstições. Ou não, pois então, o que seria do Harry Potter? Acho que o que mais irrita as pessoas é justamente a fantasia de que eu me considero superior a elas, entre outras coisas, por ser ateísta. Mas eu nunca disse que me acho superior, sou apenas diferente, não é? Mas como a situação em questão parece ser um atraso de vida, logo, sempre olho essas pessoas com indulgência e não admiração. Acreditar em deus é uma característica que coloco na mesma lista junto com: fumar, não gostar de ler, homofobia, língua presa, advogado, racismo, etc. Coisas desagradáveis, mas que sempre fazem parte da personalidade de alguém bem perto da gente. Mas também não sou desses malucos que estudam teologia pra provar que deus não existe. Porque eu deveria fazer isso? Se você quer acreditar o problema é seu. Eu não me preocupo nem mesmo com a teoria da evolução das espécies do Darwin, deixo isso pros biólogos. Repito, não vejo ninguém argumentando que os vampiros não existem. Além do mais há uma questão muito debatida na psicanálise: pode ser considerada final de análise a situação de um sujeito que ainda acredita em deus?

Destilando veneno

Ai, nem acredito no que me aconteceu essa semana. Uma coisa tão fofa... Estava acompanhando minha mãe a fazer compras, justo naquele maldito supermercado onde trabalha o menino inconveniente que conheci na única baladinha que fui sem meu namorado nos últimos meses. Estragou os meus planos pra aquela noite. Mas não é essa a questão. Entrei firme, passei pelo balcão dos gerentes onde ele fica, não olhei pra ele, mesmo sentindo os olhos dele grudados em mim. Fui seguindo meus pais, prateleira pra cá, prateleira pra lá e dou de cara com quem? Com meu amorzinho de infância! Gostava dele quando eu tinha 11 anos. Ele me reconheceu imediatamente, sem titubear. E que felicidade, modéstia à parte eu estava ótima, camisetinha branca deixando ver uma tirinha da cintura, shortinho estampado e com o cabelo solto lisíssimo devido à progressiva refeita no dia anterior. Nada como encontrar alguém do passado e perceber o quanto você melhorou, em todos os sentidos... Depois fiquei tentando me lembrar como me sentia perto dele há treze anos atrás, mas não faço a menor idéia. Como todo garoto que era bonitinho na infância ele estava meio feinho... mas não demais, porque afinal de contas ele nunca havia sido tão bonito assim. Só teria sido melhor se eu estivesse acompanhada do meu namorado... Mas já foi suficiente pra mim ter respondido a ele que formei numa federal.