domingo, 21 de outubro de 2007

O grande erro de Freud

Freud foi o patriarca do orgasmo vaginal. Criou a teoria de que o orgasmo clitoriano (orgasmo provocado por estímulo clitoriano) pertencia à infância e que a partir da puberdade, quando as mulheres começam a ter relações com homens, elas deviam transferir o centro de orgasmo para a vagina. Entendia-se que a vagina estava apta a produzir um orgasmo paralelo, porém mais maduro, do que o clitóris. Esse orgasmo vaginal presumivelmente ocorreria somente quando a mulher tivesse dominado importantes conflitos e construído uma identidade “bem integrada”, “feminina”. Da mulher que só podia atingir o orgasmo pelo estímulo clitoriano dizia-se que era “imatura” e não conseguira resolver “conflitos” fundamentais dos impulsos sexuais. Claro que uma vez dada essa definição de nossa sexualidade, Freud, como era de se esperar, descobriu um tremendo “problema” de “frigidez” nas mulheres. Essas teorias de Freud se basearam numa biologia errônea. O próprio Freud mencionou que talvez seu conhecimento biológico fosse incompleto e se mostrasse incorreto em estudos posteriores. Freud sem dúvida aceitaria atualmente tais resultados, mas a profissão que ele originou não tem reconhecido isso, ou o faz lentamente. Um grande número de psicanalistas e várias “autoridades” que escrevem em revistas femininas populares continuam a insistir em que devemos chegar ao orgasmo pelo coito, via penetração com movimentos, sem as mãos, e ainda vêem a “preponderância vaginal” como critério fundamental do funcionamento “normal” da mulher. Continuam a encarar o orgasmo produzido no coito como a única resposta sexual feminina “autêntica”, e como sintoma de um conflito neurótico o clímax causado por qualquer outra forma de estímulo (como, por exemplo, o que chamam de “clitorismo”). A teoria da sexualidade feminina de Freud foi também refutada em bases psicológicas, já que nenhum estudo importante detectou essas correlações entre a estrutura da personalidade e a capacidade para ter orgasmo no coito. Na psicologia freudiana, não só a mulher tem que gozar através do movimento do pênis na vagina, como se não o fizer é considerada “imatura” e com problemas psicológicos. A dificuldade é supostamente o reflexo de uma estrutura de caráter inadaptada. Ela é encarada como significativamente perturbada e com falta de “integração do ego”. Diz-se que essa mulher luta contra conflitos inconscientes que a tornam ansiosa e instável; e a falta de orgasmo é apenas uma faceta de sua infelicidade geral. Shere Hite, em “O relatório hite – um profundo estudo sobre a sexualidade feminina” (1982) disse que a maioria das mulheres não tem orgasmo regularmente no coito (o pênis se mexendo na vagina) sem precisar de estímulo clitoridiano. Em seu trabalho descobriu-se que para a maioria das mulheres, gozar única e exclusivamente devido ao coito é uma experiência excepcional, não é comum. O que se pensava ser um problema individual não é nem incomum nem mesmo um problema. Segundo William Masters e Virginia Johnson, em “A inadequação sexual humana”, (1970): a influência sócio-cultural coloca preponderantemente a mulher numa posição em que ela precisa adaptar, sublimar, inibir ou mesmo distorcer sua capacidade natural para funcionar sexualmente de modo a desempenhar o papel que lhe é geneticamente atribuído, isto é, a procriação. Aí reside a fonte principal da disfunção sexual da mulher. Outra razão para insistir em que as mulheres (e os homens) encontrem seu maior prazer sexual no coito, e para ver o coito como o ato sexual básico, a forma fundamental de sexo – é que nossa sociedade o exige. Com poucas exceções isoladas, nos últimos três ou quarto mil anos todas as sociedades têm sido patriarcais. Os nomes de família e as heranças têm passado através dos homens, aos quais a religião e as leis civis têm dado autoridade para determinar o rumo da sociedade. Numa sociedade não-patriarcal, em que não existem direitos de propriedade ou onde a linhagem passa pela mãe, não há necessidade de institucionalizar o coito como a forma básica de prazer sexual. Nas sociedades mais antigas que conhecemos, as famílias eram quase sempre grandes clãs, com as tias e os irmãos participando em igualdade de condições na criação das crianças. Com a mudança para uma sociedade patriarcal tornou-se necessário para o homem controlar a sexualidade. O ato sexual, além de todos os seus aspectos simbólicos (representando a dominação masculina, a manipulação e o controle da fêmea), assume uma impressionante importância prática. Acontece que os homens não têm acesso à reprodução e manutenção da espécie. E a única maneira pela qual o homem podia ter certeza de ser o único a ter contribuído era controlar a sexualidade da mulher. Para isso ele quer que ela seja virgem ao casar e monógama depois. Para conservá-la monógama o homem podia mantê-la separada dos outros homens num harém, ameaçá-la de violência no caso de um desvio, inventar um método mecânico de evitar o coito, como um cinto de castidade, remover o clitóris para diminuir os impulsos eróticos, ou convencê-la de que o sexo é a mesma coisa que o amor e que ela estará violando a ética sagrada do amor se tiver relações sexuais com mais alguém. O último método talvez seja o mais comumente usado hoje no ocidente. É realmente lamentável que nos tenham enganado com essas mentiras até hoje. (Baseado no Relatório Hite da Sexualidade Feminina)